Quem foi Machado de Assis: vida, obra e por onde começar

Um homem que aprendeu tudo sozinho, escreveu o romance mais estranho do século XIX brasileiro e continua sendo lido porque nunca resolveu nada pelo leitor.
A vida em poucos parágrafos
Nasceu no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, em 1839, neto de pessoas
escravizadas alforriadas. A mãe era açoriana; o pai, pintor de paredes. Ficou órfão cedo,
teve pouquíssima escola formal e aprendeu francês, inglês, alemão e grego por conta
própria — o inglês, conta-se, ainda na juventude, para ler Shakespeare no original.
Começou como aprendiz de tipógrafo e revisor, virou jornalista e crítico, e construiu uma
carreira estável no funcionalismo, no Ministério da Agricultura, que sustentou a obra
literária a vida inteira. Casou-se com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, com
quem viveu trinta e cinco anos; a morte dela, em 1904, o abateu de um modo que aparece nos
últimos livros.
Conviveu com epilepsia, e a doença é registrada em toda biografia séria. Em 1897 fundou a
Academia Brasileira de Letras, que presidiu até a morte, em 1908. O enterro foi acompanhado
por multidão — reconhecimento raro para um escritor no Brasil de então, e mais raro ainda
para um homem negro naquela sociedade.
As duas fases da obra
Essa divisão é a coisa mais útil que se pode saber sobre Machado, e a que mais
muda a experiência de leitura.
A primeira fase vai até 1878 e reúne quatro romances — Ressurreição,
A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia. São livros bem escritos e
convencionais, dentro do gosto romântico do período. Se você começar por eles, vai achar que
o mito é exagerado.
A segunda fase começa em 1881, com Memórias Póstumas de Brás Cubas,
e é onde está o escritor de que todo mundo fala. O narrador passa a ser irônico e pouco
confiável, o livro conversa com o leitor, o capítulo pode ter três linhas, e a psicologia
substitui o enredo como motor. Vêm daí Quincas Borba (1891), Dom Casmurro
(1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908).
Uma ressalva honesta: a fronteira de 1881 é didática, não cirúrgica. Contos da década de
1870 já trazem traços da fase madura, e a crítica discute há décadas onde exatamente a virada
acontece.
Por que ele continua sendo lido
Três motivos, e nenhum deles é patriótico.
O narrador não é confiável, e o livro não avisa. Bento Santiago passa
Dom Casmurro inteiro construindo o caso da traição de Capitu, e o texto nunca
confirma nem desmente. A pergunta "Capitu traiu?" existe há mais de um século porque o livro
foi construído para não responder — e essa recusa era radical em 1899.
A ironia é moderna. Machado não denuncia: ele deixa o personagem se
condenar sozinho, com as próprias palavras e no melhor dos humores. É o método de quem
confia que o leitor percebe.
A prosa é rápida. Capítulos curtos, frase seca, digressão cômica. Ao
contrário de quase todo clássico do século XIX, Machado praticamente não tem gordura — e é por
isso que ele sobrevive à leitura de quem tem trinta minutos por dia.
Exemplos para ler
Os livros abaixo estão no acervo do Mural dos Livros — cada um com ficha, prós, contras e resenha completa. Eles não são só ilustração do conceito: são a forma mais rápida de entender machado de assis de fato, lendo.
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis
O livro que inaugura a fase madura e o melhor lugar para começar: um defunto narra a própria vida, e a piada dura o livro inteiro sem ficar velha.
Dom Casmurro, de Machado de Assis
O caso mais discutido da literatura brasileira. Leia sabendo que a resposta não está no livro — a graça é perceber como o narrador conduz você.
O Alienista, de Machado de Assis
Machado em oitenta páginas: uma ideia levada às últimas consequências, com humor, sobre quem decide o que é loucura.
Não confunda
Machado x o realismo da apostila
Ele é classificado como realista e a etiqueta é útil para prova, mas descreve mal o que ele faz. Machado não tem o projeto de retratar a sociedade que define o realismo europeu: ele desmonta o narrador, brinca com a forma e antecipa procedimentos que só virariam comuns no século XX.
A primeira fase x a segunda
São quase dois escritores. Quem começa por Helena ou Ressurreição encontra um romancista romântico competente e nada mais. Comece por 1881.
Dom Casmurro x a culpa de Capitu
O livro não afirma a traição em momento nenhum: tudo vem do relato de um marido ciumento, décadas depois. A discussão não é sobre o que Capitu fez, é sobre o que o narrador quer que você acredite.
Por onde começar em Machado
O romance que abre a fase madura e ainda é o mais divertido dos nove — narrado por um defunto de bom humor: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis — nota 9.7/10 na resenha completa.
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Perguntas frequentes
Quem foi Machado de Assis?
Escritor brasileiro (1839-1908), autor de romances, contos, crônicas, poesia e crítica. É considerado o maior nome da literatura brasileira e foi o fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.
Quais são as principais obras de Machado de Assis?
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899) entre os romances; O Alienista e Papéis Avulsos entre a ficção curta. Todos com resenha completa aqui no site.
Por onde começar a ler Machado de Assis?
Por Memórias Póstumas de Brás Cubas, se quiser o romance, ou por O Alienista, se quiser algo curto. Não comece pelos livros da primeira fase: eles não mostram o que faz dele um caso à parte.
A que escola literária Machado de Assis pertence?
Ao realismo, na classificação escolar, a partir de 1881. A etiqueta serve para prova, mas descreve mal a obra: os procedimentos dele antecipam a literatura do século XX.
Capitu traiu Bentinho?
O livro não responde, e isso é proposital. Tudo o que se sabe vem do relato de um marido ciumento escrevendo décadas depois. A pergunta interessante não é se ela traiu, é por que o narrador precisa tanto de que você acredite que sim.
Machado de Assis era negro?
Era. Neto de pessoas escravizadas alforriadas, nascido no Morro do Livramento, chegou à presidência da Academia Brasileira de Letras numa sociedade que havia abolido a escravidão apenas em 1888.
Quantos livros Machado de Assis escreveu?
Nove romances, além de mais de duzentos contos, crônicas em jornal por décadas, peças de teatro, poesia e crítica literária. O número exato de contos varia conforme a edição que se toma como referência.
Por que Machado de Assis é considerado o maior escritor brasileiro?
Por três razões que costumam ser citadas juntas: inventou no Brasil o narrador não confiável, escreveu uma prosa irônica e econômica que não envelheceu, e construiu uma obra de fôlego em todos os gêneros que praticou.
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Leitura, análise e recomendação
Apaixonado por livros desde sempre, Léo Rezende criou o Mural dos Livros para compartilhar leituras, resenhas e descobertas com quem também não resiste a uma boa estante. Lê de clássico russo a suspense de aeroporto, e conta a verdade sobre os dois.
